Foto: Yevgeniy Mironov, Unsplash

Comunidades na Amazônia usam rádio para combater opressão

Comunidades indígenas e quilombolas usam programas de rádio para conter a destruição de seus territórios
23 janeiro 2026

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“O meu sonho está se tornando realidade”, disse Gilvana Freitas, moradora do quilombo Gibrié de São Lourenço, em Barcarena, ao ser entrevistada por uma jovem indígena na rádio Caribé do Gibrié, em novembro de 2025.

“O sonho de todos aqui da nossa comunidade era ver nossa comunidade longe da invisibilidade”, disse ela, comemorando a transmissão inaugural da estação, produzida e transmitida diretamente da própria comunidade onde ela nasceu.

O Caribé do Gibrié foi criado por indígenas e quilombolas da Amazônia brasileira durante uma oficina de rádio realizada em Barcarena, no estado do Pará, uma semana antes do início da COP30 na vizinha Belém.

Essas comunidades estão rompendo barreiras ao projetar suas vozes nos microfones e nas ondas de rádio.

Eles usem a comunicação como uma ferramenta poderosa em sua luta contra um sistema que polui seu ambiente e busca removê-los de seus territórios.

Ao longo deste artigo, compartilharemos trechos dessa transmissão inaugural e contaremos como a comunicação ajuda comunidades amazônicas a levar suas histórias para além de seus territórios.

Abertura da primeira transmissão do Caribé do Gibrié, que foi ao ar em 9 de novembro de 2025.

Ambos cantando
Laiá, laiá, laiá, laiá, laiá, laiá, laiá, laiá, laiá.

Ei, ei!

Ramon Luz
Toc, toc.

Adriane Gama
Quem é?

Ramon Luz
Toc, toc.

Adriane Gama

Esta é a Rádio Caribé, chegando a seus ouvidos diretamente de Gibrié, e eu sou Dri Peixe-Boi.

Ramon Luz

E eu sou Ramon Bombom.

Adriane Gama

E eu sou Dri Peixe-Boi da Amazônia. Olá, queridos ouvintes de nossa estação de rádio Caribé do Gibrié. Estamos transmitindo ao vivo de Barcarena, Pará, com uma audiência [ao vivo].

Ramon Luz

Olá, pessoas bonitas e motivadas!

Adriane Gama

Hoje é o dia – hoje, vamos nos divertir muito aqui.

Ramon Luz

Vamos jogar um jogo de imaginação.

Adriane Gama

E nossos repórteres estão lá – veja, entre as pessoas, aqui no auditório, para ouvir sobre os sonhos.

Ramon Luz

Mas, primeiro, vamos começar com um pouco de música, certo? Estamos aqui com o Mestre d’Bubuia em nosso auditório. Que privilégio ouvir o Mestre d’Bubuia ao vivo, não é, Dri? Que maravilha!

Adriane Gama

É isso mesmo, agora vamos sentir um pouco disso.

Ramon Luz

O que mais você poderia sonhar, Dri? Ter o Mestre d’Bubuia ao vivo?

Adriane Gama

É um sonho que se tornou realidade. Ao vivo, vamos lá!

Ramon Luz

É um sonho que se tornou realidade e que vamos sonhar juntos. Vamos lá? Toque a música, Mestre d’Bubuia!

Vamos lá, d’Bubuia!

Adriane Gama

Aqueles que sabem como fazer isso, fazem ao vivo!

Ramon Luz

O que mais você poderia sonhar além disso? Que você precisa improvisar? Vamos lá! Sonhos vivos? É isso mesmo! É isso aí!

Prática de entrevista no workshop
Os participantes realizam entrevistas práticas no workshop realizado no Quilombo Gibrié. Foto: Cândida Schaedler

“A webrádio é uma forma de garantir nossa permanência”

“Criar uma webrádio é uma forma de levarmos nossa voz mais longe e garantirmos nossa permanência aqui”, diz Josenite Santos, líder comunitária e secretária da Associação da Comunidade Quilombola e Indígena Gibrié de São Lourenço.

A comunidade criou o Caribé do Gibrié para contar suas próprias histórias e resistir à marginalização imposta pelo governo municipal de Barcarena e pelas indústrias próximas.

A tradição local se reflete até no nome do programa: Caribé é um prato tradicional da Amazônia feito de farinha de mandioca.

A primeira transmissão ocorreu no final de uma oficina de rádio organizada pela Rede Floresta Digital, um projeto conjunto desenvolvido pelas organizações Saúde e Alegria e DW Akademie, com o apoio da União Europeia.

O workshop reuniu participantes quilombolas e indígenas de nove comunidades de quatro estados amazônicos, incluindo representantes da comunidade Gibrié, e foi realizado no território do Quilombo do Gibrié.

O local foi escolhido tanto por sua proximidade com Belém quanto para aproveitar o momento em torno da COP30.

Cada comunidade selecionada pela Rede Floresta Digital recebeu 17.500 euros para comprar equipamentos e participar do workshop, enviando pelo menos um representante para replicar as lições aprendidas em sua comunidade.

Com 500 hectares e cinco bairros, Gibrié abriga cerca de 350 famílias e é oficialmente reconhecido como um quilombo desde 2016 pela Fundação Palmares.

No entanto, desde 1985, ela vem enfrentando pressão de empresas que operam localmente com o aval do governo municipal.

O quilombo é cercado por um complexo industrial que inclui uma instalação de propriedade da empresa de mineração norueguesa Norsk Hydro, acusada de poluir o rio Guamá com resíduos de bauxita.

Juntamente com relatos de contaminação ambiental, os moradores dizem que enfrentam pressão constante para deixar suas terras.

“As empresas acham que estamos lá para frear o desenvolvimento”, diz Santos. “Não há diálogo quando eles decidem se instalar aqui.”

“Também existe racismo ambiental, mas as pessoas ignoram muitas vezes. Não temos uma política pública para quem protege a floresta. Sofremos ameaças de não ter energia, água ou saneamento.”

Mário Santos, presidente da Associação da Comunidade Quilombola e Indigena Gibrié de São Lourenço, discute o “genocídio climático”.

Não estamos enfrentando apenas uma crise climática, mas um genocídio climático, especialmente em Barcarena.

Como meu primo disse há pouco, 80% do verde que você vê em Barcarena é preservado por nós; somos nós que lutamos para manter a floresta em pé e sair desse estágio de praticamente zero, em que a maior parte da cidade não tem esse reflorestamento.

Temos o projeto de abelhas e flores, que é um sonho muito grande para nós. É o nosso projeto em que produzimos mudas, sabe? E essas mudas são vendidas – algumas delas – e o restante é para nós preservarmos.

Nós replantamos em nossos parentes, com nossos vizinhos que não têm mais uma floresta, e os ensinamos a ter esse sonho – a sonhar junto conosco. Porque uma coisa é sonhar sozinho, outra coisa é sonhar junto.

E um sonho que é sonhado sozinho não é um sonho.

Atividades do workshop
Participantes se reuniram em torno de uma mesa durante o workshop para discutir próximos passos e organizar roteiros. Foto: Cândida Schaedler

Josenite Santos diz que o apoio da Rede Floresta Digital permitiu que o a comunidade do Gibrié comprasse o equipamento necessário para montar a webrádio e envolver os jovens locais.

A meta é que o Caribé do Gibrié comece a operar regularmente em março de 2026.

“Queremos promover a preservação ambiental e garantir nossa permanência perante as autoridades municipais e as empresas [por meio da webrádio]”, diz Santos.

Valter dos Santos Freitas é conhecido por seu nome artístico Mestre d’Bubuia. Na cultura local, a palavra bubuia é usada na expressão “estar de bubuia“, que significa “flutuar” ou “esperar a maré”.

Músico e compositor de ritmos tradicionais do estado do Pará, como o carimbó, ele representou a comunidade durante a COP30, apresentando-se em um concerto em Belém. Ele também atua como diretor administrativo da Associação Quilombola e Indígena do Gibrié.

Freitas diz que observou um aumento da conscientização em torno da Amazônia desde que a região sediou a maior conferência climática do mundo em novembro.

“Mas a preocupação com quem está defendendo a floresta não está acontecendo, porque o capital só vê o rio como uma forma de transporte para vir com uma barcaça e mercadoria”, ressalta.

Valter Freitas, também conhecido como Mestre d’Bubuia, se apresenta ao vivo.

Freitas já trabalhou como pedreiro e ajudou a construir o complexo industrial que hoje circunda o território. Agora ele sofre de alergias na garganta devido à exposição prolongada à poeira de alumínio no trabalho.

Para ele, a webrádio é uma plataforma essencial para divulgar a resistência da comunidade.

“Além da gente ser discriminado pelo Estado, que não dá o que a gente precisa, a própria prefeitura não nos reconhece como quilombolas”, diz ele. “Então esses projetos dão visibilidade para que a gente permaneça nessa luta.”

O músico local Valter Freitas (à esquerda), também conhecido como Mestre d’Bubuia, e sua sobrinha, Gilvana Freitas (à direita). Foto: Cândida Schaedler

“Sobre o que você quer falar?”

A experiência de rádio pela Internet não é exclusiva da comunidade do Gibrié. Em toda a Amazônia, comunidades tradicionais usam a comunicação como uma ferramenta para ganhar visibilidade.

Além de compartilhar suas lutas, eles também têm o objetivo de divulgar sua cultura, aproximando a população das tradições quilombolas e indígenas.

Entre os critérios de seleção das comunidades para o projeto estavam a presença de mulheres liderando projetos sociais, a capacidade de atingir pelo menos 900 pessoas em cada comunidade e a representação de diferentes estados brasileiros na região amazônica.

A organização Rede Floresta Digital tem como objetivo ampliar as iniciativas sociais que já estão operando em cada comunidade selecionada. No Gibrié, por exemplo, há o investindo em meliponicultura e turismo comunitário.

Os workshops e a criação da rádio na web permitem que as comunidades assumam o controle de sua narrativa. Em vez de serem objeto de cobertura jornalística – ou de invasão – eles criam suas próprias histórias para contar.

Como exercício durante a elaboração do roteiro de um dos programas-piloto, um participante perguntou a outro: “Queríamos que você fosse entrevistada. Sobre o que você quer falar?”

A entrevistada decidiu falar sobre uma associação de preservação ambiental criada em seu próprio território.

Por meio dos workshops, os participantes indígenas e quilombolas aprenderam a superar a timidez e a ganhar confiança e clareza sobre como querem contar suas próprias histórias.

André Lopes de Melo, um ativista indígena Kumaruara de 19 anos. Foto: Cândida Schaedler

“Quero levar meu trabalho muito mais longe”

A maioria dos participantes do workshop eram jovens, alguns com experiência em comunicação em suas comunidades e com o desejo de desenvolver projetos já existentes.

Entre eles estava André Lopes de Melo, de 19 anos, ativista indígena Kumaruara que vive na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns.

A comunidade de Melo enfrenta regularmente invasões de terra e pesca ilegal em seu território. Aos 14 anos de idade, ele começou a postar sobre esses crimes no Instagram.

“Há uma forma de eu fazer uma denúncia, porque estão invadindo meu território aqui que é a comunicação, as mídias sociais”, explica ele. “As denúncias são parte da luta.”

“É por isso que adoro esse trabalho: porque posso documentar por meio de vídeos e fotos que essas invasões e problemas ambientais estão acontecendo e nos afetando.”

Melo também cria vídeos sobre histórias e lendas de visões de mundo indígenas, bem como narrativas de gerações anteriores.

“Percebemos que os jovens de nossa região precisam desse tipo de informação e que o conteúdo também ajuda a explicar de onde viemos”, diz ele.

Agora, ele espera criar um podcast para entrevistar pessoas de outros territórios da Amazônia sobre suas lutas.

“Ainda quero levar meu trabalho muito mais longe, porque não estamos enfrentando essas questões apenas aqui”, ressalta Melo.

Ouvir histórias de gerações anteriores, como as contadas por sua avó, também é essencial para preservar a cultura indígena. “Essas histórias têm um significado muito profundo”, reflete.

Dirliane Freitas Loureiro entrevista Gilvana Freitas, moradora do quilombo do Gibrié, sobre sonhos.

Ramon Luz

Lembrar dos sonhos – nós imaginamos, acreditamos, especialmente nos sonhos coletivos, certo, Dri?

Adriane Gama

Sim, sonhos comunitários, certo? Então, nossa repórter Dirliane ‘Gracinha‘ – que lindo – está aqui no meio do povo. DirlianeConte-nos sobre um sonho. Queremos saber.

Dirliane Freitas Loureiro

Cara, os sonhos fazem parte de nossas vidas, eles se tornam realidade. Acreditamos em nossos sonhos, certo?

Quem não tem um sonho? E meu sonho é estar aqui hoje, e estou.

Portanto, isso faz parte dessa jornada, desse treinamento, e é muito bom.

Ramon Luz

E DirlianeEntendo que você já está aí com alguém que também pode ter alguns sonhos para compartilhar, não é mesmo?

Dirliane Freitas Loureiro

Exatamente, estou aqui com uma convidada especial chamada Gilvana Freitas, mais conhecida como Gil. Vou entrevistá-la aqui, fazer perguntas, descobrir seus sonhos.

Qual é o seu sonho, Gilvana? Pode nos dizer?

Gilvana Freitas

Meu sonho hoje. Bom dia, todos. Acho que meu sonho está se tornando realidade.

O sonho de todos aqui em nossa comunidade era ver nossa comunidade sair da invisibilidade – tornar-se visível para o mundo, para nosso país, para outros países como este.

Hoje, estamos recebendo visitantes de outros países.

Então, esse era o meu sonho: ver nossa comunidade sair da invisibilidade, tornar-se visível, estar no topo do mundo.

Dirliane Freitas Loureiro
Dirliane Freitas Loureiro, professora de 23 anos do Amapá. Foto: Cândida Schaedler

Outra jovem participante dos workshops foi a pedagoga Dirliane Freitas Loureiro, de 23 anos. Ela vem de São Tomé do Breu, uma comunidade em Mazagão, no estado do Amapá.

Sua comunidade é composta por cerca de 30 famílias, cuja principal fonte de renda é a produção de farinha de mandioca.

Loureiro explica que alguns dos principais desafios que enfrentam estão relacionados ao clima, afetando os meios de subsistência agrícola, bem como o transporte e a logística nas comunidades ribeirinhas.

Sua comunidade já tem uma estação de rádio na web – a Rádio A Nossa Amazônia – que ela espera ampliar aplicando o que aprendeu no workshop e com o apoio financeiro fornecido pelo projeto.

“A rádio vai muito além de comunicar uma música, ela faz parte da vida do povo”, explica ela.

“Eu conheço a minha realidade, mas as pessoas só vão conhecer ela se eu contar.”

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